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Andres Vera, Celso Masson e Luciana Vicária | Revista Época   

Foi-se a era de esbanjar e ostentar. A nova ordem global impõe consumir com parcimônia e priorizar a recompensa emocional
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No início do século XIX, quando a economia dos Estados Unidos ainda engatinhava em direção ao que viria a ser a maior nação capitalista do planeta, o escritor americano Henry David Thoreau (1817-1862) já questionava o consumismo desenfreado que tomara conta de seus conterrâneos.

Desiludido com os rumos da “terra das oportunidades”, Thoreau trocou a vida na cidade por uma experiência de dois anos na Floresta de Walden, em Massachusetts. Em plena expansão da economia capitalista, ele buscava a simplicidade de viver em harmonia com a natureza. Nascia ali uma das primeiras vozes modernas a pregar a frugalidade. “Um homem é rico na proporção do número de coisas das quais pode prescindir”, escreveu Thoreau no livro Walden, a vida nos bosques, obra em que ele relata seu período como eremita.

Quase 150 anos depois, o despojamento perseguido por Thoreau parece enfim estar na moda – inclusive no Brasil. Ele é motivado, em parte, pela crise financeira mundial. A atual escassez de crédito pode encerrar o ciclo de esbanjamento dos últimos anos e dar início a uma nova era de austeridade. Antes do estouro da bolha forçar um basta à extravagância, porém, outros filósofos do cotidiano se propunham a recuperar e atualizar teorias parecidas com as de Thoreau – e também com as de clássicos como os gregos Aristófanes e Epicuro. São ideias que propõem uma revisão radical das escolhas e dos hábitos de consumo. No lugar da gastança, o comedimento. “A frugalidade é uma maneira de recuperarmos coisas imateriais importantes que haviam sido perdidas: tempo, saúde e felicidade”, disse a ÉPOCA o escritor e documentarista americano John de Graaf, autor do livro Affluenza: the all-consuming epidemic (algo como A epidemia do consumo total), ainda sem previsão de lançamento no Brasil. Affluenza é um trocadilho criado a partir de influenza, nome inglês do vírus causador da gripe. Segundo Graaf, o consumo também seria uma doença, caracterizada por “sintomas de ansiedade, dívidas e desperdício”.

Antes que Graaf descrevesse o consumo como doença, a pressa já havia sido diagnosticada como um sintoma de desvio comportamental típico da nossa era. “Vivemos o delírio do tempo. Tudo tem de ser veloz. O processo e a reflexão são sempre pouco importantes”, diz o filósofo Mário Sérgio Cortella, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. “A gente só faz o urgente, o importante fica para depois”. Uma vacina contra essa mentalidade da urgência surgiu na Itália, em 1986. Foi quando alguns donos de restaurante italianos se uniram para barrar o avanço das redes de fast-food. Surgia assim o slow food, um movimento para resgatar os prazeres da mesa que iam se perdendo com as refeições rápidas e industrializadas. A ideia deu origem a uma filosofia de desaceleração. Em 2002, a cidade japonesa de Kakegawa se autointitulou a primeira cidade “slow” do mundo. A prefeitura lançou um manifesto com ideias para uma vida mais saudável – e devagar. A população de 118 mil habitantes foi conclamada a andar a pé, construir casas com bambu e papel e cultivar o hábito do tradicional chá japonês. A prefeitura também passou a tomar medidas para negociar a redução da carga horária dos trabalhadores da cidade. A lógica do slow food ainda serviu de exemplo para o conceito do slow travel (turismo sem pressa), que propõe conhecer menos destinos com mais profundidade, mergulhando na cultura local.

Lentamente, como é de esperar, o “movimento slow” avança para além da culinária e do turismo. “Quando olharmos para trás, vamos reconhecer que viver de maneira tão intensa e rápida não nos trouxe felicidade”, disse em entrevista a ÉPOCA o escritor escocês Carl Honoré, um dos pioneiros dessa filosofia (leia trechos da entrevista na última página). Depois de escrever o livro Devagar (Editora Record), Honoré dedicou-se a investigar como as relações entre pais e filhos são afetadas pela velocidade do cotidiano. A experiência resultou no livro Under pressure (Sob pressão), que será lançado no Brasil em julho. “Gastamos muito dinheiro e tempo planejando atividades complexas para nossos filhos. Na realidade, seria melhor para eles – e para nós mesmos – simplesmente passar o tempo juntos”, diz.

Dedicar mais tempo à convivência com os filhos ou amigos é uma das chaves dessa revisão de valores. “O importante é reunir os amigos, e melhor ainda se não tivermos nenhum motivo para isso”, diz o empresário do setor de plásticos Paulo Marques, de 44 anos. Ele é um dos anfitriões de uma confraria informal que surgiu num prédio de classe média alta, no Morumbi, em São Paulo. As reuniões da “turma da laje”, como os próprios se denominam, primam pelo requinte gastronômico, sem perder o espírito festeiro. Ao som de Tim Maia, bebem champanhe, uísque e cerveja. Os dez casais que participam da confraria aos poucos foram substituindo os jantares em restaurantes e as conversas em barzinhos pelo encontro no apartamento do vizinho. Numa das últimas reuniões, Rose, a mulher de Marques, que é designer de interiores, descobriu que uma das vizinhas assaria um cordeiro. Prontificou-se a levar o vinho e as taças. “Se eu saísse de casa para consumir isso, gastaria cinco vezes mais”, diz João Carlos Mello, empresário do setor de energia, outro integrante do grupo. O custo-benefício não é, porém, a principal motivação para as reuniões. “Muitos daqui não têm família em São Paulo, e ficar perto dos amigos tira um pouco a impessoalidade da cidade”, afirma Herbert Andrade, diretor-comercial do canal de TV Fox. O grupo também enumera outras razões, como a fiscalização da Lei Seca, o tempo perdido no trânsito e a distância dos filhos pequenos. “Nada melhor que ficar em casa durante o fim de semana. Só precisamos procurar alguma luz acesa pelo prédio”, diz Marques.

Embora tenham escolhido o apelido de “turma da laje”, os vizinhos de prédio do Morumbi poderiam ser chamados de “neoepicuristas”. Epicuro de Samos (341 a.C.-270 a.C.) foi o filósofo que propôs uma vida de prazer como chave para a felicidade. Mas o prazer de Epicuro não é o dos excessos, como no hedonismo. O prazer a que ele se refere é espiritual, algo que se relaciona ao passado e se desdobra no futuro. O prazer imediato, na outra ponta, está associado ao materialismo e ao consumismo e, segundo ele, deveria ser evitado.

Epicuro dividiu os desejos em categorias. A primeira é composta dos “naturais e necessários” como a nutrição, o sono e a reprodução. Também entram nessa categoria o desejo de se proteger e o de ser feliz. Os desejos “frívolos”, segundo Epicuro, seriam os não naturais e não necessários, como a ambição, a riqueza e a glória. A imortalidade ocuparia uma categoria particular, por ser um desejo irrealizável. Segundo Epicuro, o sábio satisfaz apenas aos desejos necessários, que exigem muito pouco. Para alcançar a liberdade e a paz como bens supremos, o indivíduo teria de renunciar a todos os desejos possíveis e vigiar-se contra as surpresas irracionais do sentimento, da emoção e da paixão. O objetivo é ter o corpo são, satisfazendo às necessidades básicas, e a mente sadia, para viver tranquilo e não ter o espírito perturbado. “O desejo é inimigo do sossego”, dizia Epicuro. Para ele, a sociedade deveria aprender a usar objetos que criava, sem que eles a escravizassem. A mesma lição já havia sido ensinada por Aristófanes cerca de 500 anos antes de Cristo. Ele observou que os cidadãos atenienses se endividavam por não conseguir conter o desejo de consumir tecidos, joias e outros itens importados. A crise ética da Grécia democrática foi representada na peça As vespas, uma sátira sobre a má gestão do dinheiro público. Os cidadãos passaram a inventar processos nos tribunais para justificar o ganha-pão. “Eles viviam como vespas, à custa do poder público. Consumiam cada vez mais, embora a produção não avançasse no mesmo ritmo”, dizia Aristófanes. A alavancagem grega levou à Guerra do Peloponeso – entre 431 a.C. e 421 a.C. – e a um vazio de valores. Parece estranhamente familiar, não? Antes da crise grega, a identidade do cidadão se confundia com suas posses. “Ele era o que consumia”, diz o filósofo Roberto Romano, professor titular da Unicamp. Com a escassez causada pela guerra, houve uma revisão de valores. Como parece acontecer agora.



 

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