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A Cozinha
Você é tão mal resolvida quanto eu... soava no ar! Presenciei uma situação constrangedora, mas que serve para reflexão e análise. Estavam em almoço de celebração, um grupo familiar. A matriarca sentada próxima à mesa, pouco falante. Razões de sobra, um ser humano nesta idade tem - idade proxima aos 80 anos - tem para se manter alheio aos mexericos e comentários fúteis ou naturais que permeiam o filme da vida. Algumas mulheres na faixa etária de 40 a 60 anos entravam e saiam, algumas sentaram-se à mesa para compor um grupo de trocas de experiências várias. É na cozinha que muitos gostam de ficar, principalmente se a comemoração é íntima, familiar, e claro, como não pode deixar de ser, a bebida corre solta, cabendo a cada um conhecer o seu limite para manter " a energia do ambiente", mas aproveitando para relaxar o stress da semana, da vida. A mesa sempre enfeitada por pratos feitos na hora, e todos se fartavam na degustação. A conversa variada, e o tema central era o "casamento". Material de sobra existia para que todas se manifestassem a respeito. Uma filha da matriarca falou: casam só pra trepar. A mãe retrucou: olha a POSTURA, e ela ainda soltou mais duas palavras consideradas pela mãe, de mau gosto. Lá pelas tantas, a filha falou: " mãe, eu sou tão mal resolvida quanto você, eu sou tão tímida quanto você". A matriarca não gostou, reagiu dizendo que abominava ser comparada, e saiu do ambiente rumo à sala, onde estavam convidados e filhos. Repentinamente adentram na cozinha, 3 de seus filhos, a irmã e a matriarca. Se posicionaram de uma forma que mais parecia um batalhão de fuzilamento, impedindo a passagem, caso o condenado tentasse fugir. Foi tudo muito rápido. O batalhão de fuzilamente questionava Por que havia desrespeitado de forma tão desumana A MAE a chamando de ORDINÁRIA. Dedos em riste rumo ao rosto da condenada, cada um falava o de que não havia gostado ter escutado em algum momento da vida familiar, e que havia saído da boca da condenada, ou alguém havia colocado na boca da condenada.Ou verbalizavam,vomitavam sobre ela, suas próprias frustrações. Ela atônica,olhou pra a mãe em busca do socorro- a verdade das palavras que havia dirigido para a mãe, e que foi o STOPIM da catarse familiar, e questionou: eu te chamei de ORDINÁRIA?
Não ouvi a resposta da mãe, apenas vi que ela olhou para o chão, e a seguir saiu do ambiente, deixando a filha -ovelha negra-, à mercê dos seus algozes. O que se seguiu foi um verdadeiro festival de cobranças sobre a CONDENADA, como se ela fosse uma criança precisando de corretivos e punições. Em certo momento, um dos irmãos a segurou firme pelo braço e dizia: olha,pode olhar a força com que te seguro , mas olhe para meus olhos para ouvir o que irei falar: é para não esquecer que NÃO ADMITO que magoe mais nossa mãe. Sairam da cozinha. Ela colocou a mão no coração e se dirigiu para a pia. Abriu a torneira, deixou a água escorrer em seus pulsos, braços, colheu água com as mãos lavou a nuca. Me aproximei, perguntei se sentia algo. Disse: senti algo inflando em meu coração, como se fosse um balão de ar, mas passou. Pegou sua bolsa que estava sob a cadeira, e saiu da festa sem dirigir a palavra a qualquer pessoa. Só quem estava na cozinha desde o ínicio, e sobrio o suficiente, poderia saber que não existiu motivo para que tudo aquilo ocoresse. Falar ou insinuar sobre PRAZER SEXUAL é falta de respeito, para muitas Matriarcas que no seu silêncio e tristeza no olhar, guardam segredos, que não podem sequer ser percebidos, muito menos mostrados por uma filha, mesmo dentro da cozinha, local sagrado onde todos os alimentos podem ser preparados e degustados. Alimentos emocionais, enérgeticos e materiais. Por que a mãe interpretou a fala da filha e a resumiu apenas na palavra ORDINÁRIA? Busquei notícias da "condenada" até porque, a sensação que ela descreveu, é relatada por muitos portadores da SÍNDROME DO PÂNICO. Soube por ela, que passou a semana de cama, tamanha paixão sentia no coração face ao que teve oportunidade de ouvir, e perceber como era percebida pela família. Lenta para digerir as críticas sobre o fato de falar rasgadamente verdades, doa a quem doer, sem manter a hipocrisia natural que permeia as relações humanas, mas que mudanças ela faria. Não sabemos a história de cada um dos personagens para "julgar", mas o importante é ter consciência, que cada ser humano tem condições de sair dos turbilhões emocionais onde mergulhou, e tomar decisões que suavizem a própria alma, e permitam mudanças nas emoções e atitudes. Cá entre nós, quem não é mal resolvido?
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